Treinamento de Brigada de Incêndio: Quem Pode Participar e Como Recrutar Voluntários no Condomínio
Moradores, porteiros, zeladores, terceirizados — quase qualquer pessoa pode ser brigadista. Saiba quem pode participar do treinamento de brigada de incêndio, qual o perfil ideal e como o síndico deve recrutar voluntários de forma eficaz.

O condomínio acabou de receber a notificação do Corpo de Bombeiros: a brigada de incêndio precisa ser formada ou renovada para a vistoria do AVCB. O síndico convoca uma reunião, explica a situação — e então vem a pergunta que todo gestor condominial já ouviu: "Mas quem pode participar disso?"
A resposta é mais ampla do que a maioria imagina. Moradores, funcionários, terceirizados — praticamente qualquer pessoa com condições físicas básicas pode se tornar brigadista. O desafio real não é encontrar quem pode participar, mas sim engajar quem quer participar e entende a importância do papel.
Este artigo explica em detalhes quem pode (e quem deve) integrar a brigada de incêndio do condomínio, qual o perfil ideal de um brigadista, como recrutar voluntários de forma eficaz e quais benefícios podem ser oferecidos para incentivar a participação.
Para entender a obrigatoriedade legal da brigada, o dimensionamento mínimo exigido e a carga horária de treinamento, confira nosso artigo complementar: Brigada de Incêndio em Condomínios: Quando É Obrigatória e Como Funciona o Treinamento.
Quem Pode Ser Brigadista?
Segundo a IT 17/2025 do Corpo de Bombeiros de SP, os candidatos a brigadista devem atender, preferencialmente, aos seguintes critérios: permanecer na edificação durante seu turno; ter experiência anterior como brigadista; possuir boa condição física e boa saúde; conhecer bem a edificação e as instalações; ser maior de 18 anos; e ser alfabetizado.
Os Três Grupos de Brigadistas em Condomínios
Na prática, a brigada de incêndio de um condomínio residencial é formada por três grupos distintos, cada um com características e formas de recrutamento específicas.
1. Funcionários do Condomínio
Os funcionários são a espinha dorsal da brigada — e, em muitos estados, a norma exige que ao menos uma parcela deles seja obrigatoriamente treinada.
| Função | Por Que É Estratégico |
|---|---|
| Porteiro / Controlador de Acesso | Presente 24h, primeiro a detectar fumaça ou acionar o alarme; controla entrada e saída durante evacuação |
| Zelador / Supervisor de Manutenção | Conhece toda a planta do edifício, localização de quadros elétricos, registro de gás e hidrantes |
| Faxineiro / Auxiliar de Limpeza | Circula por todos os andares durante o dia; pode identificar riscos e orientar moradores na evacuação |
| Segurança / Vigilante | Treinado para situações de emergência; atua como coordenador da evacuação em edifícios maiores |
| Auxiliar de Manutenção | Conhece os sistemas elétricos e hidráulicos; fundamental para corte de energia e gás em emergências |
A IT 17/2025 do Corpo de Bombeiros da PM de São Paulo exige que a brigada de condomínios residenciais tenha ao menos 80% dos funcionários do condomínio e 1 brigadista por pavimento. Em condomínios com portaria 24h, é boa prática manter ao menos um funcionário brigadista em cada turno.
Atenção: A designação de funcionários como brigadistas deve ser formalizada em contrato de trabalho ou aditivo contratual, com descrição das responsabilidades adicionais. Em alguns casos, pode ser necessário o pagamento de adicional de periculosidade — consulte o departamento jurídico ou a administradora antes de formalizar.
2. Moradores Voluntários
A participação de moradores é sempre voluntária — nenhum condômino pode ser obrigado a integrar a brigada. No entanto, a presença de moradores na brigada é altamente recomendável por razões práticas:
- Cobertura nos finais de semana e feriados, quando o número de funcionários é reduzido
- Conhecimento do perfil dos moradores — o brigadista morador sabe quem tem mobilidade reduzida, idosos que precisam de auxílio, crianças pequenas
- Engajamento com a segurança coletiva — moradores brigadistas tendem a disseminar a cultura de prevenção entre os vizinhos
- Redução de custo — quanto mais moradores voluntários, menor o número de funcionários que precisam ser contratados exclusivamente para a função
A seleção de moradores voluntários deve considerar os critérios preferenciais da IT 17/2025, como boa condição física e boa saúde, conhecimento da edificação, maioridade e alfabetização.
3. Terceirizados e Prestadores de Serviço Fixos
Funcionários de empresas terceirizadas que trabalham permanentemente no condomínio — como porteiros de empresa de vigilância, equipes de limpeza terceirizada ou funcionários de academias e coworkings nas áreas comuns — também podem (e devem) integrar a brigada.
A responsabilidade pelo treinamento desses profissionais deve ser definida em contrato com a empresa terceirizada: o condomínio pode exigir que a empresa forneça funcionários já certificados como brigadistas, ou pode incluir esses profissionais no treinamento contratado pelo condomínio.
Perfil Ideal do Brigadista Condominial
Embora qualquer pessoa elegível possa ser brigadista, alguns perfis se destacam pela combinação de disponibilidade, habilidades e posição estratégica no condomínio:
Disponibilidade e presença regular O brigadista precisa estar presente no condomínio com frequência. Um morador que viaja constantemente ou um funcionário em regime de escala irregular pode não estar disponível no momento de uma emergência.
Equilíbrio emocional sob pressão Situações de emergência geram pânico. O brigadista precisa manter a calma para orientar outros moradores, acionar os serviços de emergência e tomar decisões rápidas. Pessoas com histórico de reações de pânico ou ansiedade severa podem não ser as mais indicadas.
Condição física adequada Não é necessário ser atleta, mas o brigadista precisa conseguir subir e descer escadas rapidamente, carregar um extintor (peso médio de 6 a 12 kg) e, eventualmente, auxiliar na retirada de uma pessoa com mobilidade reduzida.
Interesse genuíno em segurança O brigadista motivado aprende melhor, mantém o conhecimento atualizado e dissemina a cultura de segurança no condomínio. Forçar alguém a participar sem interesse real resulta em brigadistas despreparados.
Conhecimento do edifício Moradores antigos e funcionários com mais tempo de casa têm vantagem: conhecem os pontos cegos do edifício, sabem onde ficam os hidrantes, os quadros elétricos e as rotas de fuga menos óbvias.
Como Recrutar Voluntários: Estratégias que Funcionam
O maior desafio na formação da brigada não é o treinamento em si — é convencer as pessoas a participar. Os primeiros minutos são decisivos: a brigada age antes de o Corpo de Bombeiros chegar.
Assembleia de Apresentação
Convoque uma assembleia ou reunião específica para apresentar o projeto da brigada. Inclua:
- Apresentação do instrutor credenciado (presença física ou vídeo)
- Demonstração prática do uso de extintor (pode ser feita no estacionamento)
- Depoimento de síndico de outro condomínio que já tem brigada formada
- Esclarecimento sobre o tempo de dedicação exigido (atualização anual de poucas horas + simulado)
Benefícios Concretos para os Voluntários
O condomínio pode oferecer incentivos para moradores voluntários, desde que aprovados em assembleia:
| Benefício | Viabilidade | Observação |
|---|---|---|
| Desconto na taxa condominial | Alta (aprovação em assembleia) | Valor simbólico (5% a 10%) já é suficiente como reconhecimento |
| Certificado de brigadista | Automática | Documento valorizado no currículo profissional |
| Prioridade em reserva de espaços comuns | Média | Salão de festas, churrasqueira — benefício de baixo custo |
| Kit de primeiros socorros | Alta | Custo baixo, alto valor percebido |
| Reconhecimento público | Automática | Mural de brigadistas, menção no informativo do condomínio |
Atenção legal: Descontos na taxa condominial para brigadistas voluntários precisam ser aprovados em assembleia geral e registrados em ata. O valor do desconto deve ser rateado entre os demais condôminos. Consulte a administradora para verificar a viabilidade jurídica antes de propor.
Campanha de Recrutamento por Andares
Uma estratégia eficaz é designar um "embaixador de andar" — um morador de cada pavimento que recebe informações sobre a brigada e convida os vizinhos. Essa abordagem de recrutamento peer-to-peer tem taxa de conversão significativamente maior do que comunicados gerais.
Quantos Brigadistas Recrutar?
A quantidade mínima é definida pela IT estadual e pela NBR 14276, mas o síndico deve recrutar mais do que o mínimo exigido para garantir cobertura em todos os turnos e compensar eventuais desistências ou mudanças de moradores.
Em São Paulo, a IT 17/2025 exige, em condomínios residenciais (divisão A-2), brigada formada por 80% dos funcionários da edificação e 1 brigadista por pavimento. A partir desse mínimo, recomendamos recrutar uma reserva de voluntários para cobrir turnos, férias e mudanças de moradores. Em condomínios com portaria 24h, é boa prática manter ao menos um funcionário brigadista em cada turno.
O Que Acontece com Quem Não Quer Participar?
A participação de moradores é voluntária. Nenhum condômino pode ser multado ou penalizado por não querer integrar a brigada — essa não é uma obrigação legal do morador, mas sim do condomínio como pessoa jurídica.
No entanto, o síndico pode (e deve) criar uma cultura de segurança que torne a participação desejável, não obrigatória. Moradores que entendem os riscos reais e os benefícios do treinamento tendem a se voluntariar naturalmente.
Para funcionários, a situação é diferente: a designação como brigadista pode ser incluída no contrato de trabalho como parte das atribuições da função, especialmente para porteiros e zeladores.
Perguntas Frequentes
Idosos podem ser brigadistas? Sim, desde que estejam em boa condição física e não tenham restrições médicas que impeçam esforço moderado. Idosos com mobilidade reduzida podem atuar em funções de apoio, como comunicação e acionamento do alarme, sem necessidade de esforço físico intenso.
Pessoas com deficiência podem participar? Depende do tipo de deficiência. Pessoas com deficiência auditiva, por exemplo, podem ser excelentes brigadistas visuais. Pessoas com deficiência física podem atuar em funções de apoio. A avaliação deve ser feita caso a caso pelo instrutor credenciado.
O treinamento interfere muito na rotina do morador? Em São Paulo, o nível básico exigido para condomínios residenciais tem carga mínima de 4 horas (teoria e prática de combate a incêndio e primeiros socorros), e a parte teórica pode ser feita à distância pela plataforma do Corpo de Bombeiros. A atualização é anual e, a partir do segundo ano, pode se limitar à parte prática para quem passar na pré-avaliação. O comprometimento é pequeno: poucas horas por ano, mais o simulado.
O certificado de brigadista tem validade fora do condomínio? Sim. O certificado de brigadista emitido pelo profissional habilitado responsável pelo treinamento comprova a formação e costuma ser valorizado no mercado de trabalho, especialmente em segurança e gestão de facilities.
Inquilinos podem ser brigadistas? Sim. Inquilinos têm os mesmos direitos e responsabilidades que proprietários no que diz respeito à segurança do condomínio. A participação de inquilinos na brigada é bem-vinda e recomendada.
Conclusão
A brigada de incêndio de um condomínio é tão forte quanto as pessoas que a compõem. Funcionários bem treinados garantem a resposta imediata 24 horas por dia; moradores voluntários ampliam a cobertura, trazem conhecimento do perfil dos vizinhos e criam uma cultura de segurança que vai muito além do treinamento formal.
O síndico que investe em recrutamento estratégico — com comunicação baseada em dados, benefícios concretos e engajamento genuíno — constrói uma brigada que não existe apenas no papel para cumprir a exigência do AVCB, mas que está realmente preparada para agir quando o alarme soar.
Lembre-se: o melhor momento para formar a brigada é antes de precisar dela.
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