MH Condominios

Locação de Imóvel em Condomínio: Regras, Direitos e os Limites do Airbnb

Locação tradicional, temporada e Airbnb em condomínios: entenda as regras, os direitos do locatário e do condomínio, e quando a convenção pode vedar plataformas digitais de hospedagem.

8 min de leitura
4 visualizações
Por
Locação de Imóvel em Condomínio: Regras, Direitos e os Limites do Airbnb

Introdução

A locação de unidades condominiais é um direito assegurado ao proprietário pela Constituição Federal e pelo Código Civil. No entanto, o exercício desse direito não é absoluto: ele encontra limites nas normas do condomínio, na legislação inquilinária e, cada vez mais, nas decisões dos tribunais sobre as novas modalidades de hospedagem por plataformas digitais.

Nos últimos anos, o crescimento do Airbnb e de plataformas similares trouxe um debate intenso nos condomínios brasileiros: é possível proibir esse tipo de locação? Quem tem razão — o proprietário que quer rentabilizar seu imóvel ou os demais condôminos que se sentem incomodados com o fluxo constante de estranhos nas áreas comuns?

Este artigo responde a essas perguntas com clareza, abordando os três principais tipos de locação em condomínios: a locação residencial tradicional, a locação por temporada e a locação por plataformas digitais.


1. Locação Residencial Tradicional

A locação residencial tradicional é regulada pela Lei nº 8.245/1991 (Lei do Inquilinato) e tem prazo mínimo de 30 meses para que o locador possa retomar o imóvel sem justificativa. Contratos com prazo inferior a 30 meses também são válidos, mas, terminado o prazo, a locação se prorroga por tempo indeterminado e o locador só pode retomar o imóvel nas hipóteses do art. 47 da Lei do Inquilinato.

Direitos e obrigações no condomínio

O locatário que reside no condomínio adquire os mesmos direitos e obrigações de qualquer condômino no que se refere à convivência e ao uso das áreas comuns. Ele deve respeitar o regimento interno, pagar as taxas condominiais ordinárias (salvo convenção em contrário no contrato) e responder por danos que causar.

O síndico tem o dever de tratar o locatário com isonomia, aplicando as mesmas regras a todos os moradores, independentemente de serem proprietários ou inquilinos. A cota condominial é obrigação do proprietário perante o condomínio, ainda que o contrato de locação transfira ao inquilino o pagamento das despesas ordinárias (art. 23, XII, da Lei do Inquilinato). Se o inquilino não pagar, o condomínio cobra do proprietário, que depois pode cobrar do inquilino.

Responsabilidade do proprietário

A cota condominial é obrigação do proprietário perante o condomínio. Caso o locatário não pague, o condomínio cobra do proprietário, que depois pode cobrar do inquilino. Por isso, é fundamental que o contrato de locação preveja expressamente a obrigação do locatário de pagar as taxas ordinárias e que o síndico seja notificado sobre a locação.


2. Locação por Temporada

A locação por temporada é prevista nos artigos 48 a 50 da Lei do Inquilinato e tem prazo máximo de 90 dias. É muito comum em cidades litorâneas, serras e destinos turísticos, onde proprietários alugam seus imóveis durante o verão, feriados prolongados ou festas de fim de ano.

Características principais

A locação por temporada se distingue da locação residencial por três aspectos fundamentais:

  • Prazo máximo de 90 dias: acima disso, o contrato não é de temporada; e se o inquilino continuar no imóvel por mais de 30 dias após o fim do prazo sem oposição do locador, a locação passa a ser por prazo indeterminado (art. 50)
  • Finalidade específica: a lei exige que a locação tenha finalidade determinada — lazer, tratamento de saúde, realização de obras no imóvel do locatário, entre outras
  • Pagamento antecipado: é permitido ao locador exigir o pagamento antecipado do aluguel, o que é vedado na locação residencial comum

Relação com o condomínio

Na locação por temporada, o locatário temporário tem os mesmos deveres de qualquer morador quanto ao uso das áreas comuns. O proprietário deve informar ao síndico sobre a locação e os dados do locatário, especialmente para fins de segurança e controle de acesso.

O condomínio não pode proibir a locação por temporada simplesmente por ser de curta duração, pois isso configuraria restrição ao direito de propriedade sem amparo legal. No entanto, pode regulamentar o uso das áreas comuns por locatários temporários e estabelecer procedimentos de cadastro e controle de acesso.


3. Locação por Plataformas Digitais (Estilo Airbnb)

A locação por plataformas digitais como Airbnb, Booking e similares representa uma modalidade híbrida que não se enquadra perfeitamente nem na locação residencial nem na locação por temporada tradicional. Ela se caracteriza por estadias muito curtas — frequentemente de 1 a 7 dias — com rotatividade intensa de hóspedes e uso das áreas comuns por pessoas que não têm qualquer vínculo com o condomínio.

O debate jurídico

Durante anos, a jurisprudência brasileira foi dividida sobre a possibilidade de o condomínio proibir esse tipo de locação. Proprietários argumentavam que a Constituição Federal garante o direito de propriedade e que ninguém pode ser impedido de usar seu imóvel como bem entender, desde que não prejudique terceiros.

Os demais condôminos, por sua vez, argumentavam que a rotatividade intensa de estranhos compromete a segurança, a privacidade e o caráter residencial do condomínio — valores que justificam a restrição.

O entendimento do STJ sobre a locação por plataformas

O Superior Tribunal de Justiça (STJ), no REsp 1.819.075/RS (2021) e em julgados posteriores, entendeu que a locação de curtíssima duração por plataformas, com alta rotatividade, é incompatível com a destinação residencial prevista na convenção, e que o condomínio pode proibi-la por convenção. O tema ainda não foi julgado como recurso repetitivo.

Essa decisão é fundamental e merece atenção especial de síndicos e condôminos:

Se a convenção proíbe: o proprietário que insistir em locar pelo Airbnb pode ser multado pelo condomínio, e a proibição pode ser judicialmente imposta com base na convenção.

Se a convenção é omissa: o condomínio não pode proibir a locação por plataformas digitais apenas com base no regimento interno ou em deliberação de assembleia. A restrição ao direito de propriedade exige previsão na convenção, que tem força de lei entre os condôminos.

Se a convenção permite ou é omissa e os condôminos querem proibir: é necessário convocar assembleia especial e aprovar a alteração da convenção com o quórum qualificado de 2/3 dos condôminos (art. 1.351 do Código Civil).


Como Incluir a Vedação na Convenção

Para os condomínios que desejam proibir a locação por plataformas digitais, o caminho correto é:

Passo 1 — Convocar assembleia geral extraordinária com pauta específica para deliberar sobre a alteração da convenção condominial.

Passo 2 — Atingir o quórum qualificado de 2/3 dos condôminos (não apenas dos presentes na assembleia, mas do total de condôminos do condomínio).

Passo 3 — Redigir a cláusula proibitiva com clareza, mencionando expressamente as plataformas digitais de hospedagem e a vedação de estadias inferiores a determinado prazo (recomenda-se 30 ou 90 dias).

Passo 4 — Registrar a convenção alterada no Cartório de Registro de Imóveis competente para que produza efeitos perante terceiros.

Passo 5 — Comunicar todos os condôminos sobre a alteração aprovada e o prazo para adequação dos contratos em vigor.


Tabela Comparativa dos Três Tipos de Locação

CaracterísticaLocação TradicionalLocação por TemporadaPlataformas Digitais (Airbnb)
Base legalLei 8.245/1991Lei 8.245/1991, arts. 48-50Sem regulação específica
PrazoMínimo 30 meses (recomendado)Máximo 90 diasDias a semanas
RotatividadeBaixaMédia (sazonal)Alta (contínua)
Condomínio pode proibir?NãoNãoSim, se previsto na convenção
Pagamento antecipadoVedadoPermitidoCobrado pela plataforma
Cadastro no condomínioRecomendadoRecomendadoObrigatório (se permitido)

Responsabilidades do Síndico

Independentemente do tipo de locação, o síndico tem responsabilidades específicas:

Manter o cadastro de moradores atualizado, incluindo locatários temporários e hóspedes de plataformas digitais quando a locação for permitida. Isso é essencial para a segurança do condomínio.

Aplicar as normas do regimento interno a todos os ocupantes, sejam proprietários, locatários de longa duração ou hóspedes temporários. A omissão do síndico pode gerar responsabilidade civil.

Notificar e multar proprietários que descumpram a convenção, caso ela proíba a locação por plataformas digitais. A multa deve seguir os critérios previstos na convenção e no regimento interno.

Orientar os condôminos sobre as regras vigentes e os procedimentos para alterar a convenção, caso haja interesse em incluir ou remover restrições à locação por plataformas digitais.


Conclusão

A locação de imóveis em condomínios é um direito do proprietário que deve ser exercido com responsabilidade e dentro dos limites estabelecidos pela legislação e pela convenção condominial. A locação tradicional e a locação por temporada são modalidades amplamente aceitas e reguladas pela Lei do Inquilinato.

A locação por plataformas digitais, por sua vez, ocupa um espaço jurídico ainda em consolidação. O STJ, no REsp 1.819.075/RS e em julgados posteriores, entendeu que a locação de curtíssima duração com alta rotatividade pode ser incompatível com a destinação residencial prevista na convenção, e que o condomínio pode proibi-la por convenção. O tema ainda não foi julgado como recurso repetitivo.

Para síndicos, o caminho é claro: verificar o que diz a convenção atual, consultar os condôminos sobre o tema e, se houver consenso pela proibição, convocar assembleia e formalizar a alteração. Para proprietários, o recado também é direto: conhecer as regras do seu condomínio antes de anunciar o imóvel em qualquer plataforma.


Este artigo tem caráter informativo e não substitui a consulta a um advogado especializado em direito condominial e imobiliário.

Seu condomínio precisa de uma administradora?

A MH Condomínios cuida da rotina administrativa e financeira do condomínio ao lado do síndico: cobrança, prestação de contas, folha, contratos e assembleias. Conte como é o seu condomínio e receba uma proposta.

Deixe seu comentário

Seu comentário será revisado antes de ser publicado.

Comentários (0)

Carregando comentários...

Compartilhe este artigo

Precisa de assessoria especializada?

Entre em contato com Marlene Honorato para transformar a gestão do seu condomínio